O COMBATE
Venda Grande, no dizer do historiador Celso Maria de Mello Pupo, tem sido uma tradição estremecida; os antigos a ela se referiam com veneração, cultivando sua memória como a de um ato meritório, merecedor de uma lembrança, que se perpetuasse e se transmitisse às gerações vindouras.
Acontece que andei interrogando pessoas ilustradas, aqui e ali; umas desconheciam o episódio; outras, dele ouviram falar, vagamente; e outras, ainda, me pediram: resuma o episódio; temos curiosidade de saber que combate foi esse, e quando aconteceu.
Por isso, atrevi-me a arrancar lá do fundo da memória, narrativas antigas de mestres do passado, de descendentes daqueles campineiros participantes de um movimento revolucionário, profundamente idealista, e que foi abafado, sem vencedores nem vencidos. Um destes estudiosos falou-me do sacrifício de muitas vítimas, do sofrimento de prisioneiros, que seguiram para Santos, descendo a rua Santo Antônio com destino ao cais, onde tomariam os navios, que os conduziriam ao julgamento na Corte.
Durante gerações falou-se do movimento armado de campineiros natos ou aqui residentes, que haviam se envolvido em uma revolta, logo abafada, sem vencedores nem vencidos. Então, por volta de 1843, houve uma anistia; depois, o retorno dos revolucionários, o luto em muitas famílias, e o silêncio. A memória do fato perdurou por algum tempo na tradição popular. Depois, não se falou mais nisso. As perdas materiais e a proporção numérica foram relativemente pequenas. Mas a cicatriz ficou.
Rememorando. O movimento liberal ergueu-se contra os conservadores, que estavam no poder , em 1842. Os motivos, segundo Washington Luiz, que foi também notável historiador, resumem-se no seguinte: “As leis da reforma juciciária, criadora do Conselho de Estado, atentavam contra a Constituição do País, violando o Ato Adicional. O golpe de estado de maio de 1842, que dissolveu a Câmara dos Deputados, em sua maioria contra o governo, amputara à oposição o recurso legal”. Os conservadores estavam no poder desde março de 1841, sendo presidente da Província de São Paulo o baiano Barão de Monte Alegre. Os liberais estavam exasperados, e em São Paulo projetaram depor o presidente, e aclamar o Brigadeiro Tobias de Aguiar para o cargo. O movimento foi chefiado pelo senador Feijó, já muito idoso e doente.
Não vou, claro, aprofundar-me em análises e minúcias, que somente poderiam interessar ao historiador. Mas, vale citar que os revolucionários alojaram-se no Engenho da Lagoa, sítio de Teodoro, ou Venda Grande, no dizer do povo. O armamento era pouco. E os revoltosos acabaram vencidos.
O verdadeiro historiador da Venda Grande, Amador Bueno Machado Florence, publicou na Gazeta de Campinas, em 1882, uma série de 14 crônicas, entre os dias 7 de junho e 16 de julho. O cronista era filho de Hércules Florence, que foi amigo íntimo e compadre do cabeça da revolução em Campinas, Antônio Manuel Teixeira. Ele relatou minuciosamente os episódios da ação revolucionária de 1842 em Campinas, ressaltando o heroísmo dos participantes.
Foi aqui que o exército imperial encontrou resistência. Foi aqui que o sangue paulista e campineiro ensopou o solo da província, “na coragem de um punhado de bravos que não queria recuar”. Mas Caxias, chefe das hostes governamentais, foi generoso. Não quis esmagar os vencidos, embora tivesse tido ação fulminante contra eles.
Debelada a revolta, enterrados os mortos, poucos foram aprisionados. Um deles foi Boaventura Soares do Amaral, capitão, assasinado a sangue frio pelos soldados do lado conservador. Ele ficou como símbolo dos liberais vencidos. A Gazeta de Campinas, de 16/ 7/1882, registrou a exumação das vítimas, e o translado solene de seus despojos para um cemitério público de Campinas. Os historiadores registraram os nomes de 59 componentes revolucionários.
Em março de 1843 foi promulgada lei cencedendo anistia a todos os envolvidos nos crimes políticos do ano anterior. Mas, como esquecer o episódio do Combate da Venda Grande? Como olvidar aquele movimento liberal, surgido aqui mesmo, e regado como sacrifício e o sangue de um punhado de nossos conterrâneos?
Correio Popular
Campinas, Sábado, 7 de Junho de 1997
O Combate da Venda Grande
Célia Farjallat
155 Anos do Combate
Os mortos em "Venda Grande" não foram esquecidos pelos seus contemporâneos, pois todos os soldados que morreram em combate foram sepultados próximo ao sobrado do engenho da Lagoa, no dia 08 de junho de 1842. (Pupo, 1969).
Pupo (1969) cita um artigo da "Gazeta de Campinas" de 16/07/1882: "(...Vinte anos depois, um ato de religiosa piedade fez o considerado chefe liberal Sr. Joaquim Bonifácio do Amaral, hoje Visconde de Indaiatuba. (...) Com alguns correligionários e companheiros de jornada, dirigiu-se ele ao campo de combate, onde havia um sinal de sepultura daqueles soldados, cujos ossos com todo acatamento exumados e colocados num descente férretro, foram transladados para uma das Igrejas da cidade e após as fúnebres ofícios e piodosas visitas levados solenemente ao cemitério público".
Dos relatórios e crônicas publicados no Correio Paulistano em 23/08/1942, foi possível reunir 57 nomes de componentes do corpo revolucionário (liberais) que entrou em combate:
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O Combate da Venda Grande
Entre a Memória e a História
Maria Onice Felix da Silva

