CAMPINAS EM 1842
Primeiros dias de 1842. A florescente Vila de São Carlos era cercada de abundantes matas de vegetação luxuriante, com a fragrância amena do bosque que a circundavam e as antigas grandes sesmarias de léguas e léguas de testadas, transformando-se em fazendas para a plantação de café, depois do ciclo vitoriosos da cana de açúcar, cuja cultura já entrava em declínio. O município confinava com o de Mogi-Mirim, Jundiaí, Constituição, Itu, e Bragança e contava de Sul a Norte sete e meia léguas e oito de leste a oeste. Era cabeça de Têrmo da 3.a Comarca da Província.
A cidade era dividida em seis distritos de Paz. Existiam três Irmandades religiosas, a do S. Sacramento, da N.S. das Dores e de S. Benedito. Possuia a Vila de S. Carlos, entregues ao culto público, duas Igrejas; a da Matriz Velha, já em ruínas e a do Rosário, além da Capela de Santa Cruz. A cidade possuia mais de três escolas, sendo uma pública, regida por Custódio José Inácio Rodrigues.
A agricultura era praticada em grande escala, ainda se constituindo na sua maior parte da cana de açúcar e do café, que nesse ano tomava impulso notável. Possuia, ainda, segundo recente estatística, perto de noventa engenhos e fazendas de café. Havia dezesseis engenhos de serra e seis fazendas de criar. As artes e ofícios eram representados por carpinteiros, sapateiros, ferreiros, alfaiates, seleiros, ouríves, alguns músicos, carapinas.
Havia um único cemitério para enterramento de escravos e pessoas do povo, porquanto, os enterros das pessoas mais abastadas eram feitos no corpo da Igreja Matriz Velha. Havia, ainda, na Vila, uma sociedade dramática, para espetáculos particulares. Havia duas farmácias, sendo uma de Joaquim Corrêia de Melo, o Joaquinzinho da Botíca, celebre botânico em todo mundo e outra, a de Reginaldo Xavier Balieiro.
Possuia mais de cem vendas, inclusive as das fazendas, sítios e engenhos, inúmeros botequins e duas dezenas de armazens, daí para fora. Seus prédios, quase todos de taipas, com grandes beirais, possuiam quintais enormes, todo murados, com luxuosa vegetação, constituidas, notadamente, de jurumbeva. Quanto à população, propriamente, devia alcançar perto de 12.000 almas, pois, a se julgar pela última estatística referente ao ano de 1838, tinha uma população que alcançava a cifra de 10.600 habitantes. Mais ou menos por essa época, o campineiro Custódio Manoel Alves apresentara interessante trabalho topográfico sobre a cidade, relativo ao ano de 1840.
O comércio da rua de Baixo cedera seu lugar à do Meio. A rua do Rio, tivera, tempos após, o nome de rua da Ponte e, ali, nas proximidades existia uma bica de água para beber e que se chamava a Bica do Juca Aleijado. Havia a rua da Matriz, o beco do caracol, que passava próximo à residência do ex-Regente Feijó. Foi por esse tempo que se abriu a rua Formosa, dando frente para a Matriz Nova que se levantava paulatinamente, tendo estado paralisada até 1835 e nesse ano já em ponto de cobertura; mais acima, a rua das Formigas. Quase no fim da rua das Casinhas, onde existiam os estabelecimentos para o retalho de carne verde da Câmara Municipal havia um grande brejo e mais abaixo um córrego onde as lavadeiras escravas iam lavar roupa. Havia, circundando a cidade, enormes terrenos, notadamente o Cambuí, que apresentava extenso cambuisal. A rua de Santa Cruz foi aberta também nesse ano e por ali existiam as chácaras do Dr. Sampaio de Lourenço Guedes, do Comendados Joaquim José Soares de Carvalho.
Foi aberta igualmente nesse ano, mais a rua de S. João, a futura rua do Campo, onde se faziam corridas de ráia e por esse ano se edificou a rua de São José, paralela à do Bom Jesus. Não tinhamos bairros, exeto o do Taquaral – dos “taquaranos” como chamavam aqueles que moravam por aquelas bandas. A rua de S. Carlos existia como praças públicas, o páteo da Matriz Velha, o páteo da Cadeia, bem em frente ao da Matriz, onde estava a prisão pública do lugarejo, o páteo do Rosário onde os escravos promoviam as suas danças.
A praça de Santa Cruz, lugar de todas as festas religiosas e tradicionais das famílias sancarlenses. As viagens eram difíceis, feitas em cavalos de aluguel, quando não se possuia um próprio. O correio cortava as extensas matas que separavam Jundiaí de Campinas, somente de cinco em cinco dias. As ruas, durante a semana, não tinham movimento algum, com exeção da rua do Meio, devido ao comércio. As famílias quase todas moravam em seus “sítios” e possuiam suas vivendas na cidade, para onde afluiam quando havia festas religiosas ou profanas, e, igualmente, aos domingos, para a missa das “onze”. As tropas de animais, cujo comércio se fazia em não pequena escala na Vila, atravessavam cotidianamente as ruas levando nuvens de poeira, enormes, irrespiráveis. Aos domingos o movimento era mais intenso.
O lazaros e não havia poucos, tiravam esmolas a cavalo. Não possuia iluminação alguma nas ruas e as “medidas” de azeite é que, em dias de festas, iluminavam, os copinhos multicores à frente das residências. A cidade dormia cedo. Só nas noites de luar, quando a Diana formosa vinha se extasiar com a frescura da terra quase virgem, que abria seus braços vermelhos pelos quatro cantos da Vila pequenina e encantadora é que raros transeuntes ficavam comentando os sucessos da política ou inspirava os trovadores a empunhar o violão sob os rótulos, às vezes reabertas medrosamente pela mão perfumada de algum vulto feminino.
Separata da "Revista do Arquivo" Vol. CXLV do Departamento de Cultura de São Paulo/1952
Combate da Venda Grande
Jolumá Brito

